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Punição para a incompetência

Todos os dias, todas as noites, todos os fins de semana, todo feriadão, todos fins de ano, todo verão, todo período de festa enfim, é a mesma coisa. Jornais, emissoras de rádio e televisão, os jornais da Internet, fazem a contabilidade dos mortos e feridos no trânsito, nas cidades e nas estradas. Tantos em uma só noite, dezenas no Carnaval, centenas de um ano para o outro. E em todas as notícias de morte no trânsito parece que a maioria das pessoas envolvidas se esquece de um fator essencial para essa carnificina: a má educação, a irresponsabilidade, a falta total de preparo dos motoristas e a incompetência das autoridades. Ponto.

Em todos os veículos de comunicação o que se ve é a dor de tantos planos frustrados, de tantas vidas ceifadas antes do tempo —não que a vida tenha um tempo certo pra durar. É o marido que não voltou, é o netinho que morreu voltando das férias na casa do avô, é o pai que nunca chega para a festa com o filho. A culpa é do excesso de velocidade; da ultrapassagem em local não permitido; da cervejinha na churrascaria. Mas ninguém fala da estrada e da rua mal planejada, mal construída e mal conservada; da culpa dos administradores da estrada e da cidade, da culpa das autoridades que não cuidam das vias públicas como se deve.

No frigir dos ovos, não tem autoridade, não tem código de trânsito que resolva a situação, se não houver a participação —mas a autoridade tem uma grande parcela de culpa pelo que acontece de errada no trânsito. É certo que caminho é pessoal, de cada um. Se cada motorista exercitasse os valores da cidadania, da paciência, da solidariedade, da gentileza e da responsabilidade o trânsito seria muito mais civilizado. Acontece que, a mídia, de maneira geral, só cobra do cidadão; nunca cobra do poder público, embora haja tantos erros no trânsito da exclusiva responsabilidade da autoridade.

Sempre achei que um dos grandes erros da Natureza —ou do Todo–Poderoso, sabe-se lá!— é não ter feito a incompetência doer. Já imaginou o gentil leitor se a incompetência doesse, por exemplo, nas autoridades do trânsito? Elas têm uma enorme aptidão para vigiar, fiscalizar, multar, aterrorizar o cidadão, cobrar impostos escorchantes, mas nenhuma para fazer o que lhes compete de fato. Um exemplo: por que existem computadores, câmeras-robôs, radares, sonares, lombadas eletrônicas, “fotosensores” e outros badulaques eletroeletrônicos para achacar o motorista, se as autoridades não são capazes de fazer a parte que lhes cabe na administração do trânsito?

Mas o trânsito continua mal administrado como sempre —e somos nós, cidadãos que levamos a culpa por tudo o que acontece de errado. Você, gentil leitor, já observou com que cuidado, com que refinamento, com que acabamento sofisticado – e a que custo, claro! – com que, em Campo Grande, a autoridade (do trânsito e de outras áreas) exerce a sua burrice e incompetência? Mas a culpa é sempre minha, sua, nossa —e com o apoio dos veículos de comunicação.

Entretanto, os grandes problemas – exatamente aqueles da competência do Poder Público – do trânsito continuam sem solução. As vias públicas continuam mal projetadas, com manutenção precária, mal sinalizadas e mal fiscalizadas; as auto-escolas continuam ensinando mau a quem passa por suas salas de aula e veículos de treinamento; as autoridades continuam não cumprindo as leis, mas exigindo que o cidadão as cumpra rigorosamente, e multando pesadamente quando isso não acontece. Mas nós, cidadãos, não temos como multar as autoridades.

Dia desses, uma das nossas emissoras de televisão veiculou em um dos seus telejornais uma alentada reportagem sobre a Rua Ceará, uma das vias de trânsito mais intenso de Campo Grande, um dos principais caminhos de ligação no sentido norte-sul da cidade. Rua perigosa pra danar, extremamente estressante para quem nela circula. E o responsável pela reportagem não perdoou: a culpa da esculhambação é nossa, motoristas, motoqueiros, pedestres. Temos sim nossa parcela de culpa. Mas e as autoridades que não mexem nas dimensões da Ceará, que tem largura de rua de bairro (são apenas quatro faixas de tráfego numa via de mão-dupla, sendo duas para estacionamento)? Não criam alternativas de tráfego? Mantêm aquele absurdo "semi-trevo" do cruzamento com a Avenida Afonso Pena? Não melhoram e modernizam a sinalização precária?

Aliás, seria ótimo se isso fosse possível, é ou não é? Se toda vez que um servidor público pisasse no tomate, a gente pudesse tascar-lhe uma pesadíssima multa, seria uma delícia —pois, mais cedo ou mais tarde, todo governante, todo político, acaba correspondendo àqueles que não confiam nele. Se a gente pudesse realmente punir as autoridades que dão mancada, o poder público seria muito mais confiável e eficaz. E nós, cidadãos, seríamos mais felizes.

Campo Grande MS, sábado, 10 de junho/2008
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